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  • Ronaldo Rodrigues

Música para músicos: auto-indulgência ou oportunidade?

Ronaldo Rodrigues | Tecladista | Gravações


Em uma reunião de músicos há uns anos atrás, ouvi uma frase que me marcou. "Padeiro não faz pão esperando que outro padeiro vá comprar. Músico também não faz música para outro músico ouvir". Na ocasião, eu concordei. Hoje já não concordo mais e explico porquê.


A primeira coisa que me fez refutar essa frase foi: músico também ouve música. Parece óbvio, mas o entendimento disso é um pouco mais profundo. Que tipo de música o músico ouve? Se a gente explorar bem a questão, aquilo que pode parecer algo como "falar apenas para a própria bolha" pode se transformar em oportunidade.



Vamos ampliar o conceito de músico nessa discussão - músico engloba pessoas que tocam um instrumento musical. Nisso, podemos incluir os estudantes em diferentes graus (dos iniciantes até os universitários), os que tocam por hobby, lazer ou distração, e os que são profissionais integrais no assunto - passam dias na rotina dos estúdios e/ou dos palcos.


Sobre o último grupo, nós podemos dizer que ele talvez seja o menos propenso a "consumir música". E é simples compreender o motivo, já que pessoas desse grupo passam o dia todo envolvidas com música, com muitas horas de audição de música compulsória por conta de ensaios, estudos de partituras, arranjos, preparação para gravações, etc. Ou seja, o tempo livre de músicos assim, em geral, é dedicado ao descanso dos ouvidos.


Mas os outros dois grupos, são de pessoas que tem um grande interesse por música. Interesse tal que as fazem gastar dinheiro com instrumentos, aulas, ensaios, gravações e também (frequentemente) com discos e serviços de streaming. Essas pessoas são as que tem maior potencial de verdadeiramente valorizar música feita por bons instrumentistas, vão entender e diferenciar uma boa gravação, um bom arranjo, prestar atenção aos detalhes, etc. Digo isso por experiência própria como músico de estúdio e membro de banda que envolve músicos profissionais integrais, semi-profissionais e hobbistas no mesmo grupo.



Por outro lado, se nós olharmos para o público em geral e as músicas mais tocadas no Brasil e no mundo no momento, nós vemos que o exato oposto ocorre - as pessoas ouvem hits com pouquíssimo (ou nenhum) trabalho instrumental que mereça ser mencionado, enquanto fazem outras atividades e em dispositivos que não tem uma grande qualidade para ouvintes mais exigentes.


Então, porque não investir nesse nicho? Quem é músico e busca fazer música de qualidade vai querer que seu público perceba e valorize todo o esforço colocado na música. Um dado simples pode ajudar meu leitor a se convencer mais sobre essa tese - experimente ver a seção de comentários e curtidas de um vídeo ou postagem de algum famoso músico virtuoso. Você irá se impressionar com a quantia de perfis com fotos empunhando instrumentos que curtem essas postagens.


No próximo texto dessa série vamos explorar alguns insights de como se comunicar bem com esse público em potencial.


Ronaldo Rodrigues | Tecladista | Gravações


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